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sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Cultura: Um Conceito Antropológico "abordagens teóricas"

Se o mundo da cultura é o mundo no qual o homem se reconhece, diz Vaz, só a
compreensão do seu sentido permite ao homem realizar-se como homem, e acrescenta, o
homem é ser histórico porque transforma o mundo, cria a cultura. Este caráter social e
histórico da cultura é estabelecido por meio da objetivação do sentido em obras culturais,
ou seja, é a transformação do sinal subjetivo em um sentido compreendido e comunicado.
Se não fosse este caráter de significações, o homem regridiria a comportamentos que o
autor denomina de infra-humanos. A cultura é, então, a dimensão histórica do ser humano
e, neste sentido, a definição que para Vaz melhor caracteriza essa dimensão é esta do autor
Waelhens, na qual cultura é:

  O processo social e histórico constituído pelas relações de conhecimento e
transformação do homem como natureza e pelas relações de reconhecimento do homem
com o outro homem, processo que cria um mundo humano, e através do qual o homem
se realiza como homem neste mundo humano.
(De Waelhens A., apud: Vaz,1966, p. 6)

É, neste sentido, que o autor concebe cultura como social e histórica, porque ela, na medida
que traduz um sentido a ser compreendido, é humanizante, é o próprio sentido da presença
do homem no mundo. Outros autores apontam este sentido – o momento de interação do
homem com o outro – como fundamental neste processo de humanização e socialização do
homem.
Segundo Vaz, a criação e a compreensão das obras culturais definem uma tarefa
social e histórica, capaz de traduzir, em termos de cultura, o projeto que constitui e remete
o homem à existência histórica. Isto é, em uma dimensão pessoal, a cultura passa do
domínio da necessidade para o domínio da liberdade, no qual se torna possível a
comunicação com o outro e o próprio projeto do existir social. É este movimento de
personalização que impõe à cultura o caráter de universalidade.
A cultura institui o reino do universal e possibilita ao homem construir um
mundo histórico, ou seja, o mundo humano é construído como um mundo de significações
e valores. Desta forma, afirma Vaz, as obras culturais exprimem e comprovam a
consciência histórica do grupo, a forma de sua auto-realização e o índice de seu autoconhecimento.
Mesmo considerando a influência destes fatores no processo de
desenvolvimento de uma determinada cultura, e embora a cultura seja apresentada por
diferentes autores como o processo de humanização do homem em sua relação com o outro,
percebe-se que seu caráter ideológico e alienável a desumaniza, ou seja, a cultura perde seu
caráter de universalidade em função da individualização do homem, que ocorre tanto no
processo de desenvolvimento do homem no trabalho, quanto nos processos de socialização
do homem nesta sociedade, que é mediado pela ideologia presente na mídia e nos meios de
comunicação.


Cultura: Um Conceito Antropológico

Desde a antigüidade, tem-se tentado explicar as diferenças de comportamento entre os homens, a partir das diversidades genéticas ou geográficas. As características biológicas não são determinantes das diferenças culturais: por exemplo, se uma criança brasileira for criada na França, ela crescerá como uma francesa, aprendendo a língua, os hábitos, crenças e valores dos franceses. Podemos citar, ainda, o fato de que muitas atividades que são atribuídas às mulheres numa cultura são responsabilidade dos homens em outra.

O ambiente físico também não explica a diversidade cultural. Por exemplo, os lapões e os esquimós vivem em ambientes muito semelhantes – os lapões habitam o norte da Europa e os esquimós o norte da América. Era de se esperar que eles tivessem comportamentos semelhantes, mas seus estilos de vida são bem diferentes. Os esquimós constróem os iglus amontoando blocos de gelo num formato de colméia e forram a casa por dentro com peles de animais. Com a ajuda do fogo, eles conseguem manter o interior da casa aquecido. Quando quer se mudar, o esquimó abandona a casa levando apenas suas coisas e constrói um novo iglu.

Os lapões vivem em tendas de peles de rena. Quando desejam se mudar, eles tem que desmontar o acampamento, secar as peles e transportar tudo para o novo local.

Os lapões criam renas, enquanto os esquimós apenas caçam renas.

Outro exemplo são as tribos de índios que habitam uma mesma área florestal e têm modos de vida bem diferentes: algumas são amigáveis, enquanto outras são ferozes; algumas alimentam-se de vegetais e sementes, outras caçam; têm rituais diferentes; etc

O comportamento dos indivíduos depende de um aprendizado, de um processo chamado endoculturação ou socialização. Pessoas de raças ou sexos diferentes têm comportamentos diferentes não em função de transmissão genética ou do ambiente em que vivem, mas por terem recebido uma educação diferenciada

Assim, podemos concluir que é a cultura que determina a diferença de comportamento entre os homens.

O homem age de acordo com os seus padrões culturais, ele é resultado do meio em que foi socializado

Para Edward Tylor, 1871:
Cultura é o todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro de uma sociedade.

Tylor, foi o primeiro a formular o conceito de cultura do ponto de vista antropológico da forma como é utilizado atualmente. Na verdade, ele formalizou uma idéia que vinha crescendo desde o iluminismo. John Locke, em 1690, afirmou que a mente humana era uma caixa vazia no nascimento, dotada de capacidade ilimitada de obter conhecimento, através do que hoje chamamos de endoculturação,


Tylor enfatizou a idéia do aprendizado na sua definição de cultura.
O homem é um ser predominantemente cultural. Graças à cultura, ele superou suas limitações orgânicas. O homem conseguiu sobreviver através dos tempos com um equipamento biológico relativamente simples.

Um esquimó que deseje morar num país tropical, adapta-se rapidamente, ele substitui seu iglu e seus grossos casacos por um apartamento refrigerado e roupas leves – enquanto o urso polar não pode adaptar-se fora de seu ambiente.

A cultura é o meio de adaptação do homem aos diferentes ambientes. Ao invés de adaptar o seu equipamento biológico, como os animais, o homem utiliza equipamentos extra-orgânicos. Por exemplo, a baleia perdeu os membros e os pêlos e adquiriu nadadeiras para se adaptar ao ambiente marítimo. Enquanto a baleia teve que transformar-se ela mesma num barco, o homem utiliza um equipamento exterior ao corpo para navegar.

A cultura é um processo acumulativo. O homem recebe conhecimentos e experiências acumulados ao longo das gerações que o antecederam e, se estas informações forem adequada e criativamente manipuladas, permitirão inovações e invenções. Assim, estas não são o resultado da ação isolada de um gênio, mas o esforço de toda uma comunidade.

Não existe um consenso, na antropologia moderna, sobre o conceito de cultura.

Roger Keesing, antropólogo, em seu artigo "Theories of Culture" (1974), define cultura de acordo com duas correntes:

• As teorias que consideram a cultura como um sistema adaptativo: culturas são padrões de comportamento socialmente transmitidos que servem para adaptar as comunidades humanas ao seu modo de vida (tecnologias, modo de organização econômica, padrões de agrupamento social, organização política, crenças, práticas religiosas, etc.)

• As teorias idealistas da cultura são divididas em três abordagens:

• A primeira considera cultura como sistema cognitivo: cultura é um sistema de conhecimento, "consiste de tudo aquilo que alguém tem de conhecer ou acreditar para operar de maneira aceitável dentro da sociedade"

• A segunda abordagem considera cultura como sistemas estruturais: define cultura como "um sistema simbólico que é a criação acumulativa da mente humana. O seu trabalho tem sido o de descobrir na estruturação dos domínios culturais – mito, arte, parentesco e linguagem – os princípios da mente que geram essas elaborações culturais.

• A terceira abordagem considera cultura como sistemas simbólicos: cultura é um sistema de símbolos e significados partilhados pelos membros dessa cultura que compreende regras sobre relações e modos de comportamento.

A cultura é uma lente através da qual o homem vê o mundo - pessoas de culturas diferentes usam lentes diferentes e, portanto, têm visões distintas das coisas.

O fato de que o homem vê o mundo através de sua cultura tem como conseqüência a propensão em considerar o seu modo de vida como o mais correto e o mais natural (isso é denominado etnocentrismo), depreciando o comportamento daqueles que agem fora dos padrões de sua comunidade – discriminando o comportamento desviante.

Comportamentos etnocêntricos resultam em apreciações negativas dos padrões culturais de povos diferentes, práticas de outros sistemas culturais são vistas como absurdas.

O etnocentrismo é um comportamento universal. É comum a crença de que a própria sociedade é o centro da humanidade.

A reação oposta ao etnocentrismo é a apatia. Em lugar da superestima dos valores de sua própria sociedade, num momento de crise os indivíduos abandonam a crença naquela cultura e perdem a motivação que os mantém unidos.

Por exemplo, os africanos, quando foram trazidos como escravos para uma terra estranha, com costumes e línguas diferentes, perdiam a motivação de continuar vivos e muitos praticavam suicídio.

Embora nenhum indivíduo conheça totalmente o seu sistema cultural, é necessário que o indivíduo tenha um mínimo de conhecimento da sua cultura para conviver com os outros membros da sociedade. Nenhum indivíduo é perfeitamente socializado. São estes espaços que permitem a mudança.

Qualquer sistema cultural está num contínuo processo de mudança.

Existem dois tipos de mudança cultural: interna, resulta da dinâmica do próprio sistema cultural. Esta mudança é lenta; porém, o ritmo pode ser alterado por eventos históricos, como catástrofe ou uma grande inovação tecnológica.

A mudança externa é resultado do contato de um sistema cultural com outro. Esta mudança é mais rápida e brusca.

O tempo é um elemento importante na análise de uma cultura.

Assim, da mesma forma que é importante para a humanidade a compreensão das diferenças entre os povos de culturas diferentes, é necessário entender as diferenças que ocorrem dentro do mesmo sistema.




ABORDAGEM ANTROPOLÓGICA
A existência humana é marcada pela cultura e é ela a própria fundamentação da humanidade. Cultura é criação/ aprendizagem/ criação. É modificada, enriquecida, num processo constante, consciente e inconsciente, por acaso e por necessidade. Por isso a cultura marca, registra e pauta as condutas humanas. O ser humano é muito pouco programado.



A ANTROPOLOGIA E SUAS TEORIAS ACERCA DAS CULTURAS
Com o avanço da colonização e a partir das viagens do século XVIII, os europeus passaram a manter contato com outros povos e a incluí-los na reflexão sobre a evolução da humanidade. Várias maneiras de interpretar a evolução humana surgiram; dentre elas, as versões monogenista e poligenista. A monogenia, seguindo a idéia de "perfectibilidade" defendida por Rousseau, considerava a evolução da humanidade um gradiente que ia desde o estágio menos avançado (primitivo) ao mais avançado (civilização). As dissimilitudes entre os entre os homens eram consideradas provas dos diferentes estágios pelos quais passavam no seu processo evolutivo. Essa forma de interpretação foi adotada pelos etnólogos na reconstrução do passado dos povos "primitivos". A poligenia considerava que os diferentes centros de criação explicavam as diferenças físicas e morais entre os homens. Os poligenistas acreditavam que mesmo que tivessem ancestrais comuns, os homens diferenciaram-se tanto num dado momento que não restou a possibilidade de cruzamento sem que dele resultasse degeneração.

A partir da obra de Darwin, A origem das espécies, publicada em 1859, vários ramos do conhecimento passaram a adotar uma perspectiva evolucionista: a lingüística, a pedagogia, a sociologia, a filosofia, a política. Na política, o imperialismo europeu se valeu da idéia de sobrevivência dos mais aptos para justificar o avanço do colonizador. Uma teoria sobre as raças foi sistematizada a partir do darwinismo social, preconizado por Herbert Spencer. Essa teoria estabelecia um paralelo comparativo entre as diferenciações entre os homens e as diferenças que existem entre os animais - o asno e o cavalo, por exemplo - e rejeitava a idéia de livre arbítrio do homem, pois que ele estaria fadado a receber características étnico-culturais do meio ao qual pertenciam e condenava a miscigenação, valorizando os "tipos puros" considerava a miscigenação. Essa teoria surgiu dos poligenistas e veio a legitimar o domínio de um grupo étnico sobre outro.

Nesse contexto, surge a Antropologia, que teve o evolucionismo como princípio orientador. Dividindo a evolução em estágios, os etnólogos abandonaram o uso convencional do tempo e utilizaram-se de etapas construídas logicamente para referenciar o homem. Na escala evolutiva. Morgan, em sua obra Ancient Society, descreve três estágios que seriam aplicáveis na explicação da escala de evolução humana: selvageria, barbárie e civilização.

O estudo das sociedades "primitivas" era feito tendo por base documentos escritos, onde havia o relato dos costumes, mitos, objetos utilizados pelos "selvagens" etc. Através da utilização do método comparativo, os antropólogos analisaram essas sociedades, guiados pela idéia de progresso. Esse método recebeu vários ataques, sendo Franz Boas o seu principal crítico. Uma das críticas dizia respeito ao fato de os elementos culturais serem analisados fora do seu contexto: a partir de uma parcela mínima da cultura inferia-se sobre a totalidade.

Dessa breve digressão, podemos concluir que, apesar de não podermos considerar os usos advindos dos estudos antropológicos da época como os mais "honestos", sem dúvida nenhuma foi um grande avanço o abandono da análise dos dados coletados por viajantes e a adoção da pesquisa de campo como meio de investigação. Da mesma forma, pode ser considerado um passo significativo o abandono da utilização da perspectiva evolucionista na análise dos povos não-europeus, bem como das suas explicações psicológicas e intelectualistas. Porém, o surgimento da corrente funcionalista na Antropologia - da qual Malinowski foi o precursor - trouxe consigo uma certa dose de determinismo, ao considerar o processo de colonização como dado, como algo inevitável. A necessidade do estudo dessas sociedades era justificada pelo avanço do imperialismo europeu sobre os povos "primitivos" e as comparações feitas entre essas sociedades e a sociedade da qual fazia parte o pesquisador não preocupavam-se em situá-las mecanicamente numa escala evolutiva. Os povos estudados eram focalizados em situação, ou seja, seu processo de auto-construção era avaliado a partir da contextualização dos fenômenos culturais.

Bronislaw Malinowski, tocado pelo "nojo à civilização", dedicou-se ao estudo das sociedades "primitivas" imbuído do objetivo de "apreender o ponto de vista do nativo, sua relação com a vida, compreender a sua visão de mundo." Malinowski procedeu a explicação do todo social a partir da construção de unidades significativas de análise, que seriam compostas por elementos representativos do todo e, assim, ulteriormente, encadeadas na análise. A essas unidades ele chamou isolats, e utilizou as instituições como objeto de análise. Para ele, as necessidades biológicas (primárias), determinavam a existência de outras necessidades: as necessidades culturais (secundárias). A cultura seria o aparato instrumental que inicialmente estaria ligado à satisfação das necessidades biológicas, e à medida em que houvesse o desenvolvimento, o crescimento da população e a diferenciação estrutural, ela passaria a constituir-se num meio próprio. Os padrões culturais determinariam o surgimento do estatuto, que é o liame entre as instuições. No processo de análise da realidade, Malinowski vê como fundamentais três procedimentos metodológico: a observação de todos os costumes dos nativos, a apreensão das narrativas orais e a utilização do método estatístico. Para ele, através da observação do comportamento dos nativos seria captados os "imponderáveis da vida real" - os elementos não abarcados pela análise estatística e que são "a carne e o sangue" do arcabouço teórico da pesquisa.

A antropologia de Malinowski dava maior visibilidade aos sujeitos integrantes da cultura em estudo, como forma de garantir a legitimidade científica da investigação. O abandono de pré-noções, para ele seria fundamental:
"Conhecer bem a teoria científica e estar a par de suas últimas descobertas não significa estar sobrecarregado de idéias preconcebidas. Se um homem parte numa expedição decidido a provar certas hipóteses e é incapaz de mudar seus pontos de vista constantemente, abandonando-os sem hesitar ante a pressão da evidência, sem dúvida seu trabalho será inútil."

Radcliffe-Brown, também funcionalista, propunha a combinação das tarefas de pesquisa de campo e de gabinete. Ele apontava a necessidade de estudos comparativos sistemáticos para que a Antropologia não se tornasse mera etnografia. O método indutivo, proposto também por ele, possibilitaria o estabelecimento de regularidades e leis gerais. Ele enfatiza o aspecto funcional de costumes como o rapto da noiva, hostilidade inter-grupal, entre outros, baseando-os na idéia de oposição que fundaria sociedades divididas em metades exogâmicas. Radcliffe-Brown chegou à explicação histórica de cada uma dessas sociedades em particular e, consequentemente, ao problema do totemismo e da natureza e funcionamento das relações e estruturas sociais baseadas em "oposição", que são fenômenos gerais. Dessa forma, ele articulou os métodos histórico e comparativo (aliás, numa articulação que ele propunha aos estudos antropológicos em geral), considerando, entretanto, que o método histórico seria específico da Etnologia e o método comparativo mais afeito à Antropologia Social.

Radcliffe-Brown, que também considerava de suma importância a pesquisa de campo, rejeitava o uso do conceito de cultura em sua análise, pois considerava-o desprovido do caráter empírico necessário à análise social. A abstração que o termo sugere seria substituída pela realidade empírica das estruturas sociais, que eram o seu objeto de estudo. Para ele, o indivíduo adquire relevância analítica quando inserido nessa rede de relações, desempenhando os seus diversos papéis. Aliado a esse conjunto de relações que se dão entre os indivíduos, está o conceito de forma estrutural. Para Radcliffe-Brown, a forma estrutural seria o padrão das relações que ocorrem na estrutura, tendo como maior característica a constância do mesmo. Ele não nega mudanças na forma estrutural, porém, admite que elas ocorrem de uma maneira mais lenta. A totalidade fica, assim melhor explicada na teoria de Radcliffe-Brown, pois possibilita a visualização da mesma através dos conceitos de estrutura e forma estrutural. Com a idéia de coerência funcional, ele exprime a necessidade de que os elementos estejam interligados por uma mutualidade de relações que, se não forem observadas, levam ao surgimento de conflitos.
Vê-se que o funcionalismo possibilitou o diálogo entre pesquisador e pesquisado a partir da adoção de uma postura flexível e menos dogmática perante o seu objeto de estudo, porém, nota-se que a utilização do relativismo como princípio orientador proporcionava um certo distanciamento e faz com que o investigador, ao abordar o "nativo", estabeleça uma relação na qual o entrevistado realiza o papel de mero informante, sem que haja uma troca de experiências visando ao conhecimento e questionamento culturais mútuos. Esse procedimento decorre do fato de que para os relativistas, as culturas são válidas em si mesmas, consequentemente, não há porque questionar as normas e valores nela imbricados. A postura do investigador que utiliza-se do relativismo é a de um mero coletor de informações. O relativismo, a partir da sua proposta de validade das práticas inerentes às varias culturas, inspirada no alemão Herder, não dá margem a uma interação subjetiva efetiva entre os envolvidos na relação e não possibilita a disseminação de valores universais como a liberdade e a igualdade.




CULTURA: UM CONCEITO ANTROPOLÓGICO
Introdução
Pretende-se aqui delinear a evolução do conceito de cultura, pinçando idéias defendidas no passado tais como, o determinismo biológico, geográfico, antecedentes históricos do conceito de cultura, mostrando a conciliação da unidade biológica e da grande diversidade cultural da espécie humana. O desenvolvimento do conceito de cultura, idéias sobre a origem da cultura e teorias modernas sobre cultura organizacional e, fatores que compõem a cultura brasileira. Porém, ressalta-se que não se pretende esgotar a discussão nesta apresentação, pois a natureza e a amplitude do tema não permite findar esta discussão devido as perspectivas multidisciplinares e das diversas abordagens em que se pode visualizar o emprego e a intersecção do estudo da cultura, tais como a semiótica e a hermenêutica.


Origem da cultura e antecedentes históricos do conceito de cultura
O termo cultura segundo o Novo Dicionário da língua portuguesa significa “ato, efeito ou modo de cultivar. Complexo dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições e de outros valores espirituais e materiais transmitidos coletivamente e característica de uma sociedade" (p.508). Porém no final do século XVIII e no princípio do século XIX, o termo germânico Kultur era utilizado para simbolizar todos os aspectos espirituais de uma comunidade, enquanto a palavra francesa Civilization referia-se principalmente às realizações materiais de um povo. Mais tarde Edward Tylor (1832-1917) sintetizou os dois termos no vocábulo inglês Culture, que
"tomado em seu amplo sentido etnográfico é este todo complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade".


Segundo Laraia (1996: 25) com a definição acima apresentada Tylor abrange em suma só palavra todas as possibilidades de realização humana, além de marcar fortemente o caráter de aprendizado da cultura em oposição a idéia de aquisição inata, transmitida por mecanismos biológicos.
Há muito se estuda o comportamento dos animais, inclusive o comportamento do homem, com a finalidade de entender o que o conduz as atividades cotidianas e, as relações entre eles na formação dos grupos e na relação entre outros grupos. Confúcio (VX séc. a C.) enunciou que "a natureza dos homens é a mesma, são os seus hábitos que os mantêm separados" este é um pensamento compartilhado por vários estudiosos até a atualidade, inclusive adotado pelas ciências sociais quando se trata de estudos inerentes a cultura organizacional. Pois, não há como se aceitar algo como bom ou mal, sem uma análise prévia, quando esta não é prática em sua terra, isto vale para práticas de gestão sugeridas a serem adotadas em uma organização. Há que se observar e analisar as possibilidades de adequação.


Segundo Sahlins apud Laraia (1996: 24),
"(...) a posição da moderna antropologia é que a cultura age seletivamente, e não casualmente, sobre o seu meio ambiente, explorando determinadas possibilidades e limites ao desenvolvimento, para o qual as forças decisivas estão na própria cultura e na história da cultura."

Apesar da evolução do conceito de cultura demonstrar que as questões biológicas e geográficas não interferem nas ações humanas, ainda existe alguns resquícios no que diz respeito as questões referentes a supremacia de raça (inteligência) e da melhor localização geográfica (nordeste brasileiro).



Desenvolvimento do conceito de cultura
O determinismo biológico, bem como o geográfico são idéias que no passado foram consideradas relevantes para conceituar cultura. Com o passar do tempo diversas investigações foram realizadas e chegou-se a conclusão de que estas teorias, apesar de terem sido importantes para o entendimento de algumas dimensões da natureza humana, apresentando limitações e inconsistência para o entendimento do conceito de cultura. Aí então, inaugura-se uma nova fase de estudos e interpretação de culturas.

Segundo Leibniz apud (Laraia, 1986) a natureza nunca age por saltos, analogamente conclui-se que, a cultura também não age por saltos, ela é resultado do acúmulo das ações dos homens, que inclusive altera a própria natureza, pois é necessário compreender a época em que se viveu e consequentemente o background intelectual de quem ou do que está se analisando.

A comunicação é um instrumento decisivo para a assimilação da cultura, pois a experiência de um indivíduo é transmitida aos demais, criando assim um interminável processo de acumulação permeado por valores cristalizados, o que nos leva a afirmar que a linguagem humana é um produto da cultura. Daí a necessidade de identificar as determinadas formas de comunicação que atinja todos as pessoas da organização quando da transmissão de uma mensagem.

Pois, para Hoebel apud (Barros & Prates, 1996: 15),
"O homem é o único animal que fala de sua fala, pensa o seu pensamento, que responde à sua própria resposta, que reflete o seu próprio reflexo e é capaz de diferenciar-se mesmo quando está se adaptando as causas comuns e estímulos comuns".

Comportamentos compartilhados são componentes da cultura o que nos leva inclusive a afirmar que, teorias behavioristas (Watson - condicionamento), Cognitivista (Piaget-psicogenética) quando aplicadas, mesmo que inconscientemente por um grupo de pessoas determinam algumas características culturais em relação ao padrão de comportamento. Normas impostas por organizações determinam padrões de comportamento, marcando de forma indelével a cultura organizacional. Portanto, pode-se afirmar que diferenças culturais não são genéticas e sim adquiridas no decorrer do tempo.
"Possuidor de um tesouro de signos que tem a faculdade de multiplicar infinitamente, o homem é capaz de assegurar a retenção de suas idéias (...), comunicá-las para outros homens e transmiti-las para os seus descendentes como herança sempre crescente." (Turgot apud Laraia 1986, 27).

De acordo com Kluckhohn apud Geertz (1989: 14) cultura pode ser vista como:
“...o modo de vida global de um povo; 2) legado social que o indivíduo adquire do seu grupo; 3) uma forma de pensar, sentir e acreditar; 4) uma abstração do comportamento; 5)Uma teoria, elaborada pelo antropólogo, sobre a forma pela qual o grupo de pessoa se comporta realmente; 6) um celeiro de aprendizagem em comum; 7) um conjunto de orientações padronizadas para os problemas recorrentes; 8) comportamento aprendido; 9) um mecanismo para regulamentação normativa do comportamento; 10) um conjunto de técnicas para se ajustar tanto ao ambiente externo como em relação aos outros homens; 11) um precipitado da história.”

Ao correlacionar o conceito de cultura apresentado por Kluckhohn com a "praxis" organizacional, emerge daí padrões de comportamento (normas), processo de adaptação (símbolos e signos), tecnologia e componentes ideológicos (religião, mitos, cerimônias), ou seja, valores compartilhados pelos membros da organização, resultado do processo de individuação, isto é, de atitudes individuais que ao mesmo tempo que interfere no comportamento do grupo, interfere na atitude individual de cada membro da organização, resultando numa configuração impar de cultura organizacional.



Teorias modernas sobre cultura
A utilização da antropologia para a análise organizacional deve-se ao fato de que esta área do conhecimento consegue abranger as dimensões da linguagem, do simbolismo, do espaço, do tempo e da cognição. A abordagem antropológica intensificou-se na década de 80, inclusive gerando críticas pelo uso acrítico, explicando tudo e qualquer coisa através do conceito de cultura. Porém, para seus defensores o grande mérito desses estudos foi justamente chamar a atenção para a dimensão simbólica que permeia a organização e os seus grupos. A necessidade de encontrar os significados das relações entre os elementos da cultura de uma organização e que dão sentido ao quotidiano das mesmas justifica o apelo ao estruturalismo, do qual Geertz (1989) é um dos representantes.

Para Geertz (1989: 15) o conceito de cultura é essencialmente semiótico, que vem de encontro com o pensamento de Max Weber "que o homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu". Geertz concebe a cultura como uma "teia de significados" que o homem tece ao seu redor e que o amarra. Busca-se apreender os seus significados (sua densidade simbólica).

Um dos métodos utilizados para entender a cultura é a descrição etnográfica que se baseia nas palavras dos informantes e o pesquisador interpreta-a e compartilha os significados juntamente com seus informantes, ou seja, aqueles que na verdade possuem o roteiro simbólico do que concebem e articulam logicamente entre suas visões de mundo. O respeito rigoroso à visão que os nativos têm sobre os aspectos analisados (sobre si mesmo, seus conhecimentos e práticas cotidianas, sua concepção do mundo) é fundamental.

Ao se analisar a cultura organizacional sob a ótica antropológica, faz-se necessário interpretar e decodificar a visão de mundo subjacente aos sistema de gestão utilizados e praticados pelas organizações. Pois a prática etnográfica estabelece relações e sendo assim é dialógica, ou seja é uma via de mão dupla, na qual o mesmo objeto ou fato deve ser visto e sentido do mesmo modo, o que requer uma descrição densa do que se está diagnosticando, que segundo Goodenough apud Geertz (1989: 21) "a cultura (está localizada) na mente e no coração dos homens".

Alguns estudiosos contemporâneos tal como Schein, apresentam alguns modelos para diagnosticar a cultura organizacional. Para Schein apud Monteiro et.al.(1999: 74) as categorias para investigar o universo cultural de uma organização são:

1) Analisar o teor e o processo de socialização dos novos membros;

2) Analisar as respostas a incidentes críticos da história da organização;

3) Analisar as crenças, valores e convicções dos criadores ou portadores da cultura;

4) Explorar e analisar junto a pessoas de dentro da organização as observações surpreendentes descobertas durante as entrevistas.

As categorias apresentadas por Schein vem sendo largamente utilizadas nas investigações sobre cultura organizacional, inclusive se tem chegado a algumas conclusões tais como: a importância do papel dos fundadores da organização no processo de moldar seus padrões culturais, que imprime sua visão de mundo aos demais membros da organização e, também sua visão do papel que a organização deve desempenhar no mundo.

Dentre os estudiosos da atualidade encontra-se Fleury, que apresenta o seguinte conceito de cultura organizacional:
“Cultura organizacional é um conjunto de valores e pressupostos básicos, expressos em elementos simbólicos que, em sua capacidade de ordenar, atribuir significações, construir a identidade organizacional, tanto agem como elementos de comunicação e consenso, como ocultam e instrumentalizam as relações de dominação.” (Fleury, 1991: 06).

Smircich apud Monteiro et al. (1999: 73-74) propõe duas linhas de pesquisa a serem seguidas na investigação da cultura organizacional que são:

1) A cultura como uma variável, como alguma coisa que a organização tem, estas variáveis são independentes externa (cultura da sociedade onde a organização está inserida) e interna (produtos culturais como lendas, ritos, símbolos).

2) A cultura como raiz da própria organização, algo que a organização é, considerando a organização como um fenômeno social.

A cultura não é determinante nas tomadas de decisões em uma organização, mas influencia sobremaneira nas diretrizes e práticas a serem adotadas, pois é um instrumento de poder a ser utilizado pelos gestores.



Uma visão antropológica
Para Beyer & Trice (1986), o rito se configura como uma categoria analítica privilegiada para desvendar a cultura das organizações, que é composta por redes de concepções, normas e valores, que são tão tomados por certos que permanecem submersas à vida organizacional. Para Horton & Hunt (apud Fleury, 1989), a cultura é tudo aquilo que é apreendido e partilhado pelos membros de uma sociedade. Esse conceito utiliza-se do método funcional, ou seja, a sociedade sofreu segmentação causada pela divisão de trabalho. Para Hofstede (apud Fleury, 1989), a cultura se baseia em modelo de pensamento que se transfere de pessoa para pessoa. Apesar desses pensamentos situarem-se na mente das pessoas, ficam cristralizados nas instituições e nos produtos tangíveis de uma sociedade.

Já para Horton & Hunt (1980), a cultura é tudo aquilo que é socialmente apreendida e partilhada pelos membros de uma sociedade. Desta forma, conclui-se que a antropologia funcional explica a gênese da cultura de uma sociedade e que as subculturas nasceram dentro deste mesmo processo funcional, pelo motivo de a sociedade ter sofrido segmentação causada pela divisão de trabalho e ainda que cultura é adequada por surgir uma necessidade a ser satisfeita, e se manteve porque se provou ser conveniente para um fim colimado.
Lakatos (1979) define que a cultura é um modelador de comportamento e está presente em qualquer agrupamento de pessoas com características próprias a cada um deles. Malinowski (1965) afirma que a cultura não é estática e que acompanha as modificações da sociedade; desta forma conclui-se que a organização formal é dinâmica e assim se transforma de acordo com as interações sociais.

 

CHAUÍ, Marilena. Cultura e democracia: o discurso competente e outras falas. 3 ed. São
Paulo: Moderna, 1982.
_______. Convite à filosofia. São Paulo: Ática. S/d.
GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e
Científicos, 1989.                                                                                                                                LARAIA, Roque. Cultura: um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Zahar, 1988.                 VAZ S. J., Henrique de Lima. Cultura e universidade. Petrópolis, RJ: Vozes, 1966.
(Coleção educar para a vida. V. 10).                                                                                                                                                        

 

 








quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Pavlov's Discovery of Conditioning

An Introduction to Classical and Operant Conditioning in Psychology
Conditioning in behavioral psychology is a theory that the reaction ("response") to an object or event ("stimulus") by a person or animal can be modified by 'learning', or conditioning. The most well-known form of this is Classical Conditioning (see below), and Skinner built on it to produce Operant Conditioning.

Pavlov's Discovery of Conditioning
This mode of learning was demonstrated by the experiments of Ivan Pavlov, who decided to research conditioning after discovering during separate gastric tests that his dog subjects began to salivate not only when meat powder was presented to them, but more significantly, when the person feeding them came into proximity with them. The dogs had been inadvertently trained through classical conditioning to associate the person feeding them with the food itself, and reacted in a similar way (salivation) to the feeders. This is known as a stimulus-response (SR), when salivation becomes a responsive action to the stimulus of the person feeding the dogs:

At the start of the experiments:
  • The Unconditioned/Neutral Stimulus (US/NS) is the person arriving to feed the dogs before the salivation as a result of their presence had began.
  • The Unconditioned Response (UR) was for the dogs not to salivate.

By the end of the experiments, when the unconditioned stimulus and responses had been conditioned:
  • The Conditioned Stimulus (CS) becomes the person arriving to feed the dogs, which stimulates the Conditioned Response:
  • The Conditioned Response (CR) becomes salivation (normally a reflex action to aid digestion when feeding is going to begin) at the sight of the person.

On disovering this associative learning on the part of the dogs, Pavlov decided to carry out further research specific to conditioning...

Classical Conditioning
The most famous experiment by the physiologist related to conditioning followed this research. Commonly referred to as "Pavlov's Dogs", the experiment aimed to condition the dogs to associate the opening of a doorwith feeding time. By selecting a bell as the Unconditioned Stimulus instead of the person arriving to feed the dogs, as in his previous tests, Pavlov was providing a stimulus to which feeding was unrelated.

At feeding time, the door was opened and food was then provided. Initially, salivation was not secreted with the opening of the door, but over time, the stimulus became conditioned, and when the door was opened but food was not provided, salivation still occured, suggesting that the door opening had become a Conditioned Stimulus.

Instrumental Learning
An extension of Classical Conditioning was devised by Edward Thorndike (1874-1949), who placed cats in a puzzle box. The incentive of a fish as food was placed outside of the box, giving the cats a reason to try to escape from the box. Initially, they had trouble escaping, and only gained freedom by knocking the latch of the box. Over time, they learnt that the undoing of the latch would enable their escape, and so the time spend being trapped in the puzzle box decreased as their knowledge of how to leave it increased.

Thorndike termed this conditioning the "Law of Effect" in 1911: a positive outcome to a situation resulted in the stamping in of a particular behavior (in the case of the puzzle box, the opening of the latch was stamped in). Conversely, if an outcome is undesirable - had the cats been punished as a result of leaving the box - the action leaving to it would be stamped out - become less frequent.

Operant Conditioning and Reinforcement
In 1938, B.F. Skinner carried out an experiment with caged rats in an "operant conditioning chamber" - Skinner's Box - who learnt through Operant Conditioning that if they pressed on a lever, food would be released for them. Under Operant Conditioning, reinforcement plays a key role:

Reinforcement Type: Description: Tendency to Behave in a Particular Manner:
Positive Reinforcement A stimulus is introduced which incentivises a particular behavior. e.g. the reward of a pellet of food in Skinner's Box. Increases
Negative Reinforcement A desirable incentive is introduced to not behave in a particular way. Increases
Positive Punishment An undesirable punishment (e.g. electric shock) is introduced when the subject behaves in a particular way, discouraging such behavior. Decreases
Negative Reinforcement Removing the desirable stimulus (e.g. food) to prevent a particular behavior. Decreases

The key difference between operant conditioning and classical conditioning is that the former creates association based on the result of a subject's behavior and the outcome that it generates as a secondary effect, whereas classical conditioning more primitively concentrates on the behavior itself.

Examples of Conditioning
A dog receiving positive attention after fetching a stick back to its owner, learns to associate bringing the object back with favorable attention - positive reinforcement.
A rat in a cage with an electrified floor learns that by pressing a lever, the electrical shock will stop - negative reinforcement.
A cat being shouted at for scratching furniture is discouraged to repeat this - positive punishment.
A child not being allowed to watch television after misbehaving associates bad behavior with an absence of rewards - negative punishment.
Criticisms
  • Conditioning has numerous practical applications in everyday training and education. Animal training routinely uses conditioning, with food treats as a form of positive reinforcement for good behavior.
  • Generalisation of Association: A danger, particularly of the positive punishments described above, is that a subject may begin to associate an undesirable reinforcement with stimuli beyond those originally intended. This was demonstrated in Skinner's Little Albert experiment, in which Albert heard a loud noise on the sight of a white rat. However, in addition to an aversion to white rats, Albert gained a phobia of anything that resembled it - including, for example, white beards.

OriginPsychologist World.com; Psychology articles, tests, approaches, explanations and more.


 

quinta-feira, 28 de julho de 2011

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terça-feira, 8 de março de 2011

Cognitive Behavioral Therapy

Cognitive Behavioral Therapy

How Cognitive Behavioral Therapy can be used as a treatment. Article includes an introduction to CBT, exposure therapy, the Negative Triad as well as the successes and criticisms of the treatment.


Cognitive Behavioral Therapy is a therapeutic approach in psychology that is intended to help individuals learn to cope with anxiety inducing or stressful situations by rationally addressing faulty cognition and the ways in which it leads to inappropriate and self-defeating behaviors. For those with some knowledge of the history of psychology, even the name of the therapy might cause some confusion, as the disciplines of cognitive psychology and behaviorism are often seen as being at odds with one another. In this case, however, the theorists are more firmly on the side of cognitive psychology – they definitely hold cognitive processes to have some degree of agency in causing behavior. They are not simply types of behavior in and of themselves.

The whole of cognitive behavioral therapy is quite vast, with a number of different approaches and techniques that ultimately intend to accomplish the same goals. As a therapeutic device, it has proven quite successful in helping diminish phobias, overcome anxiety disorders, and relieve the symptoms of posttraumatic stress disorder.

Exposure Therapy


One of the areas in which cognitive behavioral therapy, or CBT, has made the most strides is in dealing with anxiety and phobia. The underlying principle behind CBT is that one holds false beliefs and expectations about the world that adversely color our interactions with others, causing undue stress and anxiety. The psychologist O. Mowrer was one of the first to attempt to undermine those false beliefs with a form of therapy intended to improve behavior by way of cognition.

This type of therapy, known as exposure therapy, worked as follows. Suppose that you were afraid of spiders. Even if you knew rationally that a spider wasn't poisonous and posed no threat to you, you would still feel anxious when a spider came near you, and have feelings close to panic if one touched you. For the cognitive psychology, what is going on here? You hold false beliefs about spiders on some level, such that when you're exposed to them, your experience is affected adversely by your irrational cognition. The anxiety and fear you feel as a result reinforces those irrational feelings, making things worse.

With exposure therapy, you would be gradually exposed to your stressor (spiders), while at the same time having your typical response (anxiety and fear) suppressed. For instance, a therapist might place a spider near you and help you maintain a sense of calm through talking and becoming slowly and gradually acclimated to the idea of having a spider near you. In time, you might even be able to touch the spider. Eventually, your fears should diminish entirely. How does this work? It's simply that, if you're exposed to a spider without allowing your anxiety to be triggered, the stimulus of the spider gradually becomes disassociated from the response of anxiety, and the phobia is conquered.

Aaron Beck’s Negative Triad


Another cognitive psychologist, Aaron Beck, was the first to formalize the idea of the cyclical interplay between environment, cognition, and behavior, calling it the negative triad. The negative triad works as follows.

First, one holds a "negative schema" regarding the world. Maybe this is the expectation that you will be treated poorly by others, or that others are looking to harm you in some way. Maybe it's simply the expectation that any cats you meet will bring you bad luck. Whatever the case, these negative schema are self-destructive beliefs with the tendency to induce stress in those who hold them.

When one interacts with the world, this negative schema provides the framework in which the interaction will unfold. If one talks to a job interviewer with a feeling of positivity, one might have good results. By contrast, if one talks to a job interviewer with a negative schema in place, feeling as if the situation is hopeless, then the meeting will probably go bad.

When the meeting does go bad, it reinforces our negative schema. We feel that our expectations have been met, and are thus justified. What we need to come to realize, according to Beck, is that our negative schema actually *cause* the poor outcomes and our own self-destructive behaviors. With conscious recognition, however, these cognitive biases and negative schemas can be overcome, and one can approach the world with feelings of confidence that will ultimately produce good results.

Success with Posttraumatic Stress Disorder

 Elsewhere, researchers have had a great deal of success applying CBT to posttraumatic stress disorders. Typically, those suffering from this disorder will feel a sense of generalized anxiety as a result of an earlier, unresolved traumatic event. Generally, this event will have led to the formation of negative schema that can, at least theoretically, be undone with CBT. Mark Reinecke at Northwestern University has conducted a number of recent studies that further verify the utility of CBT in combating posttraumatic stress disorder.

Criticisms

While CBT is one of the most popular therapeutic approaches to come out of clinical psychology in decades, it is not well loved by everyone. There are detractors, for instance, who claim that the relative simplicity and low implementation cost of CBT have led to its becoming more popular than warranted. As evidence for this, they cite the general lack of evidence that CBT can be therapeutically effective against schizophrenia and other psychotic disorders.
 
Evaluation

Cognitive Behavioral Therapy is the attempt to overcome anxiety, depression, and neuroses through the conscious recognition of self-destructive beliefs, with the assumption being that changing this cognition will ultimately change one's behavior, and thusly one's experience with the world.

CBT has had success in treating phobias through a technique called exposure therapy that involves gradual exposure to the object of fear, coupled with a systematic repression of the anxiety response.

Aaron Beck formalized the cyclical interplay of environment, cognition, and behavior with his "negative triad", a cycle in which one's negative schema affects one's experiences, and those experiences in turn reinforce one's negative schema.

While CBT has been shown to be effective in treating posttraumatic stress disorder, depression, anxiety, and phobias, little evidence has been cited that it is effective in dealing with schizophrenia and other psychotic disorders.

References;

Mowrer, O. “Learning Theory and Behavior.” New York: John Wiley & Sons, 1960.

Origin; Psychologist World: Psychology articles, tests, approaches, explanations and more.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Quem foi Sigmund Freud ?

Sigmund Freud (Viena,1856 – Londres, 1939), médico austríaco e fundador da psicanálise. Nascido em Freiberg, na Moravia (ou Pribor, na República Tcheca), em 6 de maio de 1856, e chamado Schlomo (Salomo) Sigismund, Sigmund Freud era filho de Amália Freud e de Jacob Freud, e filho mais velho do terceiro casamento de seu pai.
Circuncidado ao nascer, o jovem Sigmund recebeu uma educação judaica não tradicionalista e aberta à filosofia do Iluminismo. Era adorado pela mãe, que o chamava “meu Sigi de ouro”, e amado pelo pai, que lhe transmitiu os valores do judaísmo clássico. Tinha uma afeição especial por sua governanta tcheca e católica, Monika Zajic, apelidada Nannie, que o levava para visitar igrejas, falava-lhe do “bom Deus” e lhe revelou outro mundo além do judaísmo e da judeidade. Talvez ela também tenha desempenhado um papel em sua aprendizagem da sexualidade.
Freud nasceu em uma família de abastados comerciantes judeus. Sempre se destaca a complexidade das relações intrafamiliares. Seu pai, Jakob Freud, que exercia o ofício de comerciante de lã e têxteis, casou-se, pela primeira vez, aos 17 anos e teve dois filhos (Emmanuel e Philippe). Viúvo, casa-se novamente com Amália Nathanson, de 20 anos, idade do segundo filho de Jakob. Freud será o mais velho dos oito filhos do segundo casamento de seu pai, e seu companheiro preferido de brinquedos foi seu sobrinho, que tinha um ano a mais do que ele. Do casamento de Jacob e Amália nasceram os seguintes irmãos de Freud: Julius, Anna, Débora (Rosa), Marie (Mitzi), Adolfine (Dolfi), Pauline (Paula) e Alexander.
Quando tinha 3 anos, em outubro de 1859, Jacob e a família deixaram Freiberg, onde seus negócios não prosperavam em virtude da introdução do maquinismo e do desenvolvimento da industrialização o que provocou uma queda dos rendimentos familiares . Instalou-se então em Leipzig, esperando encontrar nessa cidade melhores condições para o comércio de têxteis. Para Freud, essa partida permanecerá sempre dolorosa. Merece ser lembrado um ponto que ele próprio menciona: o amor sem desfalecimentos que sua mãe sempre lhe votou, ao qual atribui a confiança e a segurança que demonstrou em todas as circunstâncias.
Por sua vez, Emanuel e Philipp emigraram para Manchester. Um ano depois, não tendo conseguido modificar sua má situação econômica, Jacob decidiu estabelecer-se em Leopoldstrasse, o bairro judeu de Viena. Entre 1865 e 1873, o jovem Sigmund freqüentou o Realgymnasium e depois o Obergymnasium, onde ficou conhecendo Eduard Silberstein, com quem manteve sua primeira grande correspondência intelectual, notadamente a respeito de Franz Brentano. Nessa época, apaixonou-se por Gisela Fluss, filha de um negociante amigo do seu pai. Mais tarde, fez amizade com Heinrich Braun (1854-1927), que despertaria seu interesse pela política e depois se orientaria para o socialismo.
Foi um aluno muito bom em seus estudos secundários, e foi sem uma vocação especial que no outono de 1873, Freud começou seu estudo de medicina. Devem se destacar duas coisas, uma ambição precocemente formulada e reconhecida e “o desejo de contribuir com alguma coisa, durante sua vida, para o conhecimento da humanidade” (“Psicologia dos Estudantes”,1914). Sua curiosidade, “que visava mais às questões humanas do que às coisas da natureza” (“Um Estudo Autobiográfico” [Selbstdarstellung],1925) leva-o a acompanhar, ao mesmo tempo, durante três anos, as conferências de F. Brentano, várias delas dedicadas a Aristóteles. Em 1880, publicou a tradução de vários textos de J.S.Mill: “Sobre a emancipação da mulher”, “Platão”, “A questão operária”, “O socialismo”.
Em setembro de 1886, depois de um noivado de vários anos, desposa Martha Bernays, com quem terá cinco filhos. Em 1883, é nomeado docente-privado (que equivale, na França, ao título de mestre conferencista) e professor honorário em 1902. Apesar de todos os tipos de hostilidade e dificuldades, Freud sempre se recusará a abandonar Viena. Foi somente pela pressão de seus alunos e amigos e depois do “Anschluss” de março de 1938 que irá finalmente se decidir, dois meses mais tarde, a partir para Londres.
Apaixonou-se pela ciência positiva, e principalmente pela biologia darwiniana (que serviria de modelo para todos os seus trabalhos). Em 1874, pensou em ir a Berlim, para freqüentar os cursos de Hermann von Helmholtz. Um ano depois, com o estímulo de Carl Claus, seu professor de zoologia, obteve uma bolsa de estudos que lhe permitiu ir a Trieste estudar a vida das enguias (machos) de rio. Sua primeira publicação data de 1877: “Sobre a Origem das Raízes Nervosas Posteriores da Medula Espinhal dos Amoceta” (Petromyzon planeli), enquanto a última, referente às Paralisias cerebrais infantis, de 1897, esse texto mostra que Freud trabalhava na elaboração de uma teoria do funcionamento específico das células nervosas (os futuros neurônios), como se veria em seu “Projeto para uma psicologia científica” de 1895. Durante esses 20 anos, pode-se reunir 40 artigos (fisiologia e anátomo-histologia do sistema nervoso).
Freud entrou no Instituto de Fisiologia, dirigido por E.Brücke, após três anos de estudos médicos, em 1876. Depois dessa experiência, Freud passou do instinto de zoologia para o de fisiologia, tornando-se aluno de Ernst Wilhelm von Brucke, eminente representante da escola antivitalista fundada por Helmholtz. Foi nesse instituto, onde ficou seis anos, que fez amizade com Josef Breuer. Entre 1879 e 1880, forçado a uma licença para cumprir o serviço militar, enganava o tédio traduzindo quatro ensaios de John Stuart Mill (1806-1873), sob a direção de Theodor Gomperz (1832-1912), escritor e helenista austríaco, responsável pela publicação alemã das obras completas desse filósofo inglês, teórico do liberalismo político.
O trabalho de Freud sobre a afasia (Uma concepção da afasia, estudo crítico[Zur Auffassung der Aphasien], 1891) permanecerá na sombra, embora ofereça a mais aprofundada e notável elaboração da afasiologia da época. Suas esperanças de notoriedade tampouco foram satisfeitas por seus trabalhos sobre a cocaína, publicados de 1884 a 1887. Havia descoberto as propriedades analgésicas dessa substância, negligenciando as propriedades anestésicas, que seriam utilizadas com sucesso por K.Koller. A lembrança desse fracasso vai ser um dos elementos que originaram a elaboração de um sonho de Freud, a “monografia botânica”.
Freud se encontrava, no início da década de 1880, na posição de pesquisador em neurofisiologia e de autor de trabalhos de valor, mas que não lhe permitia, por falta de assegurar a subsistência de uma família. Apesar de suas reticências, a única oferecida era abrir um consultório de neurologista na cidade, o que fez, de forma surpreendente, no domingo de Páscoa, 25 de abril de 1886.
Em 1882, depois de obter seu diploma, ficou noivo de Martha Bernays (Martha Freud), que se tornaria sua mulher. Por razões financeiras, renunciou então à carreira de pesquisador e decidiu tornar-se clínico. Nos três anos seguintes, trabalhou no Hospital Geral de Viena, primeiro no serviço de Hermann Nothnagel, depois no de Theodor Meynert. Ali, ficou conhecendo Nathan Weiss (1851-1883), e quando esse novo amigo se suicidou por enforcamento, Freud ficou transtornado. “Sua vida, escreveu a Martha, parece ter sido a de um personagem de romance, e sua morte uma catástrofe inevitável.”
Pensando em tornar-se célebre e libertar-se da pobreza para poder se casar, acreditava ter descoberto as virtudes da cocaína e administrou-a a seu amigo Ernst von Fleischl-Marxow, que sofria de uma doença incurável. Não percebia a dependência induzida pela droga e ignorava tudo sobre sua ação anestesiante, que seria descoberta por Carl Koller.
Em 1885, nomeado “Privatdozent” de neurologia, Freud obteve uma bolsa de estudos graças à qual pudera realizar um de seus sonhos, ir a Paris. Queria muito encontrar-se com Jean Martin Charcot, cujas experiências sobre a histeria o fascinavam. Foi assim que teve um encontro determinante, na Salpêtrière, com Charcot. Deve-se observar que Charcot não se mostrou interessado nem pelos cortes histológicos que Freud lhe levou, como prova de seus trabalhos, nem pelo relato do tratamento de Anna O., cujos elementos clínicos principais seu amigo J. Breuer lhe tinha comunicado, a partir de 1882. Charcot quase não se interessava pela terapêutica, preocupando-se em descrever e classificar os fenômenos para tentar explica-los de forma racional.
Essa primeira permanência na França marcou o início da grande aventura científica que o levaria à invenção da psicanálise. No Teatro Saint-Martin, Freud assistiu maravilhado à representação de uma peça de Victorien Sardou, interpretada por Sarah Bernhardt: “Nunca uma atriz me surpreendeu tanto; eu estava pronto a acreditar em tudo o que ela dizia.” Depois de Paris, foi a Berlim, onde fez os cursos do pediatra Adolf Baginsky.
De volta a Viena, instalou-se como médico particular, abrindo um consultório na Rathausstrasse. Freud também trabalhava, três tardes por semana, como neurologista na Clínica Steindlgasse, primeiro instituto público de pediatria, dirigido pelo professor Max Kassowitz (1842-1913). Em setembro de 1886, casou-se com Martha, e no dia 15 de outubro fez uma conferência sobre a histeria masculina na Sociedade dos Médicos, onde teve uma acolhida glacial, não em razão de suas teses (etiológicas), como diria depois, mas porque atribuía a Charcot a paternidade de noções que já eram conhecidas pelos médicos vienenses.
Em 1887, um mês depois do nascimento de sua filha Mathilde (Hollitscher), Freud ficou conhecendo Wilhelm Fliess, brilhante médico judeu berlinense, que fazia amplas pesquisas sobre a fisiologia e a bissexualidade. Era o início de uma longa amizade e de uma soberba correspondência íntima e científica. Apesar de várias tentativas, Fliess não conseguiria curar Freud de sua paixão pelo fumo: “Comecei a fumar aos 24 anos, escreveu em 1929, primeiro cigarros, e logo exclusivamente charutos [...]. Penso que devo ao charuto um grande aumento da minha capacidade de trabalho e um melhor autocontrole.”
Freud começa a utilizar os meios de que dispunha, a eletroterapia de W.H. Erb, a hipnose e a sugestão. As dificuldades encontradas levam-no a se ligar a A.A. Liébault e H. M. Bernheim, em Nancy, durante o verão de 1889. Traduz, aliás, as obras deste último para o alemão. Encontra nelas a confirmação das reservas e decepções que ele próprio sentia por tais métodos.
Em setembro de 1891, Freud mudou-se para um apartamento situado no número 19 da rua Berggasse. Ficou ali até seu exílio em 1938, cercado por seus seis filhos (Mathilde, Mrtin, Oliver, Ernst, Sophie Halberstadt, Anna) e de sua cunhada Minna Bernays. Como clínico, tratava essencialmente de mulheres da burguesia vienense, qualificadas como “doentes dos nervos” e sofrendo de distúrbios histéricos. Abandonando o niilismo terapêutico, tão comum nos meios médicos vienenses da época, procurou, ante de tudo, curar e tratar de suas pacientes, aliviando os seus sofrimentos psíquicos. Durante um ano, utilizou os métodos terapêuticos aceitos na época: massagens, hidroterapia, eletroterpia. Mas logo constatou que esses tratamentos não tinham nenhum efeito. Assim começou a utilizar a hipnose, inspirando-se nos métodos de sugestão de Hippolyte Bernheim, a quem fez uma visita por ocasião do primeiro congresso internacional de hipnotismo, que se realizou em Paris em 1889. Em 1891, publicou uma monografia, “Contribuição à concepção das afasias”, na qual se baseava nas teorias de Hughlings Jackson para propor uma abordagem funcional, e não mais apenas neurofisiológica, dos distúrbios de linguagem. A doutrina das “localizações cerebrais” era substituída pelo associacionismo, que abria caminho para a definição de um “aparelho psíquico” tal como se encontraria na metapsicologia: ele faz sua primeira formulação em 1896 e estabelece seus fundamentos no capítulo VII da “Interpretação dos Sonhos”.
Em 1890, consegue convencer seu amigo Breuer a escrever com ele uma obra sobre a histeria. Seu trabalho em comum dará lugar à publicação, em 1893, de “Sobre o mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos: comunicação preliminar”, que irá abrir caminho para “Estudos sobre a histeria”; já se encontra nele a idéia freudiana de defesa, para proteger o sujeito de uma representação “insuportável” ou “incompatível”. No mesmo ano, em um texto intitulado “Algumas Considerações para um Estudo Comparativo das Paralisias Motoras Orgânicas e Histéricas”, publicado em francês em “Archives neurologiques”, Freud afirma que “a histeria se comporta, nessas paralisias e outras manifestações, como se a anatomia não existisse, ou como se ela não tomasse disso nenhum conhecimento”.
Os “Estudos sobre a histeria”, obra comum de Breuer e Freud, são publicados em junho de 1895. A obra comporta, além da Comunicação Preliminar, cinco observações de doentes: a primeira – de Anna O (Bertha Pappenheim) – é redigida por Breuer e é nela que se encontra a expressão tão feliz “Talking Cure”, proposta por Anna O; as quatro seguintes devem-se a Freud. A obra conclui com um texto teórico de Breuer e um outro sobre a psicoterapia da histeria, de Freud, onde se pode ver o início do que irá separar os dois autores no ano seguinte.
Em “L’ Hérédité et l’Étiologie dês Névroses”, publicado em francês, em 1896, na “Revue neurologique”, Freud de fato afirma: “Experiência de passividade sexual antes antes da puberdade; é essa, pois, a etiologia específica da histeria”. No artigo, é empregado pela primeira vez o termo “psicanálise”. Foi também durante esses anos que a reflexão de Freud sobre a súbita interrupção feita for Breuer no tratamento de Anna O levou-o a conceber a transferência.
Finalmente, deve-se assinalar a redação, em poucas semanas, no final de 1895, de “Projeto para uma Psicologia Científica” (Entwurf einer Psychologie), que Freud nunca irá publicar e que constitui, no começo, sua última tentativa de apoiar a psicologia sobre os dados mais recentes da neurofisiologia.
Trabalhando ao lado de Breuer, Freud abandonou progressivamente a hipnose pela catarse, inventou o método da associação livre, e enfim a psico-análise. Essa palavra foi empregada pela primeira vez em 1896, e sua invenção foi atribuída a Breuer. Em 1897, com um relatório favorável de Nothnagel e de Richard von Krafft-Ebing, o nome de Freud foi proposto para receber o prestigioso título de professor extraordinário. Sua nomeação foi ratificada pelo imperador Francisco-José no dia 5 de março de 1902.
Ao contrário de muitos intelectuais vienenses marcados pelo “ódio de si judeu”, Freud, judeu infiel e incrédulo, hostil a todos os rituais e à religião, nunca negaria sua judeidade. Como enfatizou Manès Sperber, ele continuaria sendo “um judeu consciente, que não dissimulava a ninguém sua origem, proclamando-a, ao contrário, com dignidade e freqüentemente com orgulho. Muitas vezes, afirmou que detestava Viena e que se sentia como que libertado a cada vez que se afastava dessa cidade, onde crescera e à qual ficaria ligado, entretanto, por laços indestrutíveis. Sua consciência da identidade judaica permaneceria assim, pois sua origem nunca foi para ele uma fonte de sentimentos de inferioridade, embora ela lhe causasse problemas e dificuldades suplementares, principalmente em sua vida profissional”.
Sua posição doutrinária está centrada na teoria do núcleo patogênico, constituído na infância, por ocasião de um trauma sexual real, decorrente da sedução por um adulto. O sintoma é a conseqüência do recalcamento das representações insuportáveis que constituem esse núcleo, e o tratamento consiste em trazer a consciência os elementos, como se extrai um “corpo estranho” , sendo a conseqüência do levantamento do recalque o desaparecimento do sintoma.
Durante alguns dos anos que antecederam a publicação de “A interpretação de sonhos”, Freud introduz na nosografia, à qual não é indiferente, alguma entidade nova. Descreve a neurose de angústia, separando-a da categoria bastante heteróclita da neurastenia. Isola, pela primeira vez, a neurose obsessiva (alem. Zwangsneurose) e propõe o conceito de psiconeurose de defesa, no qual é integrada a paranóia.
Porém, sua principal tarefa é a auto-análise, termo que irá empregar por pouco tempo. Eis o que diz sobre isto, na carta a W.Fliess, de 14 de novembro de 1887: “Minha auto-análise continua sempre em projeto, agora compreendi o motivo. É porque não posso analisar a mim mesmo a não ser me servindo de conhecimentos adquiridos objetivamente (como para um estranho). Uma verdadeira auto-análise é realmente impossível, de outro modo não haveria mais doença”.
No âmbito de sua amizade com Fliess, ocorreram vários acontecimentos maiores na vida de Freud: sua auto-análise, um intercâmbio de caso (Emma Eckstein), a publicação de um primeiro grande livro, “Estudos sobre a histeria”, no qual são relatadas várias histórias de mulheres (Bertha Pappenheim, Fanny Moser, Aurélia Öhm, Anna von Lieben, Lucy, Elisabeth von R., Mathilde H., Rosalie H.), e enfim o abandono da teoria da sedução segundo a qual toda neurose se explicaria por um trauma real. Essa renúncia, fundamental para a história da psicanálise, ocorreu em 21 de setembro de 1897. Freud comunicou-a a Fliesse em tom enfático, em uma carta que se tornaria célebre: “Não acredito mais na minha Neurótica.”
O encontro com Fliess remonta a 1887. Freud começa a analisar sistematicamente seus sonhos, a partir de julho de 1895. Tudo se passa como se Freud, sem antes se dar conta disso, tivesse utilizado Fliess como intérprete, para efetuar sua própria análise. Seu pai morreu em 23 de outubro de 1896. Poder-se-ia pensar que tal acontecimento não foi estranho à descoberta do complexo de Édipo, do qual se encontra, um ano mais tarde, na carta a Fliess de 15 de outubro de 1897, a seguinte primeira formulação esquemática: “Acorreu-me ao espírito uma única idéia, de valor geral. Encontrei em mim, como em todo lugar, sentimentos de amor para com minha mãe e de ciúme para com meu pai, sentimentos que são, acho eu, comuns a todas as crianças pequenas, mesmo quando seu aparecimento não é tão precoce como nas crianças que se tornaram histéricas (de uma forma análoga à da romantização original nos paranóicos, heróis e fundadores de religiões). Se isso for assim, pode-se compreender, apesar de todas as objeções racionais que se opõem à hipótese de uma fatalidade inexorável, o efeito percebido em ‘Édipo rei’. Também se pode compreender por que todos os dramas mais recentes do destino deveriam acabar miseravelmente...mas a lenda grega percebeu uma compulsão que todos reconhecem, pois todos a”. sentiram. Cada ouvinte foi, um dia, em germe, em imaginação, um Édipo, e espanta-se diante da realização de seu sonho, transportado para a realidade, estremecendo conforme o tamanho do recalcamento que separa seu estado infantil de seu estado atual”.
Começou então a elaborar sua doutrina da fantasia, concebendo em seguida uma nova teoria do sonho e do inconsciente , centrada no recalcamento e no complexo de Édipo. Seu interesse pela tragédia de Sófocles foi contemporâneo de sua paixão por Hamlet. Freud era um grande leitor de literatura inglesa, alimentando-se especialmente da obra de Shakespeare: “Uma idéia atravessou o meu espírito, escreveu a Fliess em 1897, de que o conflito edipiano encenado em ‘Édipo rei’ de Sófocles poderia estar também no cerne de Hamlet. Não acredito em uma intenção consciente de Shakespeare, mas, antes, que um acontecimento real levou o poeta a escrever esse drama, tendo seu próprio inconsciente lhe permitido compreender o inconsciente do seu herói.” A ruptura definitiva com Fliess ocorrerá em 1902.
Depois de 1926, e a despeito de uma longa discussão com James Strachey, Freud acabaria cedendo à crença segundo a qual Shakespeare não era o autor de sua obra. Aliás, esse tema do deslocamento da atribuição de uma paternidade ou de uma identidade se encontraria por várias vezes em sua obra, principalmente em “Moisés e o monoteísmo”, na qual fez de Moisés um egípcio.
Da nova teoria do inconsciente nasceria um segundo grande livro, publicado em novembro de 1899, “A Interpretação dos Sonhos” (Die Traumdeutung), no qual é relatado o sonho da “Injeção de Irmã”, ocorrido quando Freud estava em Bellevue, em julho de 1895, em um pequeno castelo na floresta vienense: “Você acredita, (escreveu a Fliess no dia 12 de julho de 1900), que haverá um dia nesta casa uma placa de mármore com esta inscrição: Foi nesta casa que, em 24 de julho de 1895, o ministério do sonho foi revelado ao doutor Sigmund Freud? Até agora, tenho pouca esperança.” O postulado inicial introduz uma ruptura radical com todos os discursos anteriores. O absurdo, a incongruência dos sonhos não é um acidente de ordem mecânica; o sonho tem um sentido, esse sentido está escondido e não decorre das figuras utilizadas pelo sonho, mas de um conjunto de elementos pertencentes ao próprio sonhador, fazendo com que a descoberta do sentido oculto dependa das “associações” produzidas pelo sujeito. Exclui-se, portanto, que esse sentido possa ser determinado sem a colaboração do sonhador.
Aquilo com que estamos lidando é um texto; sem dúvida, o sonho é constituído principalmente de imagens, mas o acesso a elas só pode ser obtido pela narrativa do sonhador, que constitui seu “conteúdo manifesto”, que é preciso decifrar, como Champollion fez com os hieróglifos egípcios, para descobrir seu “conteúdo latente”. O sonho é constituído como os “restos diurnos”, aos quais são transferidos os investimentos afetados pelas representações de desejo. O sonho, ao mesmo tempo em que protege o sono, assegura, de uma forma camuflada, uma certa “realização de desejo”. A elaboração do sonho é feita por técnicas especiais, estranhas ao pensamento consciente, a condensação (um mesmo elemento representava vários pensamentos do sonho) e o deslocamento (um elemento do sonho é colocado no lugar de um pensamento latente).
Resultam dessa concepção do sonho uma estrutura particular do aparelho psíquico, que foi objeto do sétimo e último capítulo. Mais do que a divisão em três instâncias, consciente, pré-consciente e inconsciente, que especifica o que se chama de primeira tópica, convém conservar a idéia de uma divisão do psiquismo em dois tipos de instâncias, obedecendo a leis diferentes e separadas por uma fronteira que só pode ser ultrapassada em determinadas condições, consciente-pré-consciente, por um lado, inconsciente, por outro. Esse corte é radical e irredutível, nunca poderá haver “síntese”, mas apenas “tendência à síntese”. O sentimento próprio ao eu da unidade que constitui nosso mental não é mais do que uma ilusão. Um aparelho desse tipo torna problemática a apreensão da realidade, que deve ser constituída pelo sujeito. A posição de Freud, aqui, é a mesma expressa no “Projeto”: “O inconsciente é o próprio psíquico e sua realidade essencial. Sua natureza íntima nos é tão desconhecida como a realidade do mundo exterior, e a consciência nos ensina sobre ela de uma maneira tão incompleta como nossos órgãos dos sentidos sobre o mundo exterior”.
Para Freud, o sonho se encontra em uma espécie de encruzilhada entre o normal e o patológico, e as conclusões concernentes ao sonho serão consideradas por ele como válidas para explicar os estados neuróticos.
“A psicopatologia da vida cotidiana” (Zur Psychopathologie dês Alltagslebens) é publicado no ano seguinte, em 1901. Ela começa, por exemplo, com um esquecimento de nome, o de Signorelli, análise já publicada por Freud em 1898; o esquecimento associa, em sua determinação, tanto com motivos sexuais como a idéia de morte. A obra reúne toda uma série de pequenos acidentes, aos quais quase não se dá, via de regra, nenhuma atenção, como os esquecimentos de palavras, as “lembranças encobridoras”, os lapsos da palavra ou escrita, os erros de leitura e escrita, os equívocos, os atos falhos, etc.
Esses fatos podem ser considerados como manifestações do inconsciente, nas seguintes três condições: 1.não deve ultrapassar um certo limite fixado por nosso juízo, isto é, aquilo que chamamos de “os limites do ato normal”; 2.devem ter caráter de um distúrbio momentâneo; 3.não podem ser caracterizados assim a não ser que os motivos nos escapem e que fiquemos reduzidos a invocar o “acaso” ou a “falta de atenção”.
“Ao colocar os atos falhos na mesma categoria das manifestações das psiconeuroses, damos um sentido e uma base a duas afirmativas que ouve repetir com freqüência, a saber, que entre o estado nervoso normal e o funcionamento nervoso anormal, não existe um limite claro e marcado (...). Todos os fenômenos em questão, sem nenhuma exceção, permitem que se chegue aos materiais psíquicos reprimidos incompletamente e que, embora recalcados pela consciência, não perderam toda a possibilidade de se manifestar e se exprimir”.
O terceiro texto, “Os chistes e sua relação com o inconsciente” (Der Witz und seine Beziehung zum Unbewuften), é publicado em 1905. Diante desse material logo e difícil, alguns se perguntaram por que Freud tinha julgado necessário acumular uma quantidade tão grande de exemplos, com uma classificação complicada. Sem dúvida, porque suas teses eram difíceis de pôr em evidência. Eis as principais. “O espírito reside apenas na expressão verbal”. Os mecanismos são os mesmos do sonho, a condensação e o deslocamento. O prazer que o espírito engendra está ligado à técnica e à tendência satisfeita, hostil ou obscena. Porém, um terceiro ocupa sobretudo nele um papel principal, e é isso o que o distingue do cômico. “O espírito em geral precisa da intervenção de três personagens: aquele que faz a palavra, aquele que se diverte com a verve hostil ou sexual e, enfim, aquele no qual é realizada a intenção do espírito, que é a de produzir prazer”. Finalmente: “Só é espirituoso aquilo que é aceito como tal”. Compreende-se então a dificuldade para traduzir a palavra alemã “Witz”, que não tem equivalente em francês, mas também a dificuldade de seu manejo em alemão, por aquilo que acaba de ser lembrado e pela diversidade dos exemplos utilizados, histórias engraçadas, chistes, trocadilhos, etc. A especificidade do “Witz” explica a atenção que Freud tem em distingui-lo do cômico, distinção assim resumida: “O espírito é, por assim dizer, para o cômico, a contribuição que lhe vem do domínio do inconsciente”.
No mesmo ano, surgem os “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (Drei Abhandlungen zur Sexualtheorie), onde é afirmada e ilustrada a importância da sexualidade infantil e proposto um esquema da evolução da libido, por suas fases caracterizadas pela sucessiva dominância das zonas erógenas bucal, anal e genital. Nesse texto a criança, em relação à sexualidade, é definida como um “perverso polimorfo”, e a neurose é situada como “o negativo da perversão”.
Mais ou menos entre 1905 e 1918, irão se suceder um grande número de textos referentes à técnica e, para ilustra-la, apresentações de casos clínicos. Entre estes últimos estão as “Cinco psicanálises”:
Em 1905, “Fragmento da análise de um caso de histeria”: observação de uma paciente chamada Dora, centrada em dois sonhos principais, cujo trabalho de interpretação ocupa sua maior parte.
Em 1909, “Análise de uma fobia em um menino de cinco anos” (o pequeno Hans): Freud verifica a exatidão das “reconstituições” efetuadas no adulto.
Também em 1909, “Notas sobre um caso de neurose obsessiva” (O Homem dos Ratos): a análise é dominada por um voto inconsciente de morte, e Freud se espanta ao verificar, “ainda mais” em um obsessivo, as descobertas feitas no estudo da histeria.
Em 1911, “Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranóia” (Dementia paranoides) (o presidente Schreber): a particularidade dessa análise se prende ao fato de que Freud nunca encontrou o paciente, contentando-se em trabalhar com as “Memórias” nas quais este descrevera sua doença, dando a elas um interesse científico.
Finalmente, em 1918, “História de uma neurose infantil” (O Homem dos Lobos): a observação foi para Freud de particular importância. Ela fornecia a prova da existência, na criança, de uma neurose perfeitamente constituída, seja ela aparente ou não, nada mais sendo a do adulto do que uma exteriorização e repetição da neurose infantil; ela demonstrou a importância dos motivos libidinais e a ausência de aspirações culturais, ao contrário de C. Jung; ela forneceu uma exata ilustração da constituição do fantasma e do lugar da cena primitiva.
Em 1902, com Alfred Adler, Wilhelm Stekel, Max Kahane (1866-1923) e Rudolf Reitler (1865-1917), fundou a Sociedade Psicológica das Quartas-Feiras, primeiro círculo da história do freudismo. Durante os anos que se seguiram, muitas personalidades do mundo vienense se juntaram ao grupo: Paul Federn, Otto Rank, Fritz Wittels, Isidor Sadger. Foi durante essas reuniões que se elaborou a idéia de uma possível aplicação da psicanálise a todas as áreas do saber: literatura, antropologia, história, etc. O próprio Freud defendeu a noção de psicanálise aplicada, publicando uma fantasia literária: “Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen (1907)”.
Em 1907 e 1908, o círculo dos primeiros discípulos freudianos se ampliou ainda mais, com a adesão à psicanálise de Hanns Sachs, Sandor Ferenczi, Karl Abraham, Ernest Jones, Abraham Arden Brill e Max Eitingon.
Durante o primeiro quarto do século, a doutrina freudiana se implantou em vários países: Grã-Bretanha, Hungria, Alemanha, costa leste dos Estados Unidos. Na Suíça produziu-se um acontecimento maior na história do movimento psicanalítico : Eugen Bleuler, médico-chefe da clínica do Hospital Burghölzli de Zurique, começou a aplicar o método psicanalítico ao tratamento das psicoses, inventando ao mesmo tempo a noção de esquizofrenia. Uma nova “terra prometida” se abriu assim à doutrina freudiana: ela podia a partir de então investir o saber psiquiátrico e tentar dar uma solução para o enigma da loucura humana.
No dia 3 de março de 1907, Carl Gustav Jung, aluno e assistente de Bleuler, foi a Viena para conhecer Freud. Depois de várias horas de conversa, ficou encantado com esse novo mestre. Seria o primeiro discípulo não-judeu de Freud.
Em 1909, a convite de Grandville Stanley Hall, Freud foi, em companhia de Jung e de Ferenczi, à Clark University de Worcester, em Massachusetts, para dar cinco conferências, que seriam reunidas sob o título de “Cinco lições de psicanálise”. Apesar de um encontro produtivo com James Jackson Putnam e de um sucesso considerável, Freud não gostou do continente americano. Durante toda a vida, desconfiaria do espírito pragmático e puritado desse país que acolhia suas idéias com entusiasmo ingênuo e desconcertante.
Temendo o anti-semitismo e que a psicanálise fosse assimilada a uma “ciência-judaica”, Freud decidiu “desjudalizá-la”, pondo Jung à frente, como presidente, do movimento. Depois de um primeiro congresso, que reuniu em Salzburgo em 1908 todas as sociedades locais, criou com Ferenczi, em Nuremberg, em 1910, uma associação internacional, a Sociedade Psicanalítica de Viena “Internationale Psychoanalytische Vereinigung” (IPV). Em 1933, a sigla alemã seria abandonada. A IPV se tornaria então a Associação Internacional de Psicanálise “International Psychoanalytical Association” (IPA).
Entre 1909 e 1913, Freud publicou mais duas obras: “Leonardo da Vinci e uma lembrança da sua infância” (1910) e “Totem e tabu” (1912-1913). A partir de 1910, a expansão do movimento se traduziu por dissidências, tendo como motivo simultaneamente quer elas pessoais e questões teóricas e técnicas. Às rivalidades narcísicas se acrescentaram críticas sobre a duração dos tratamentos, a questão da transferência e da contratransferência, o lugar da sexualidade e a definição da noção de inconsciente.
Inicialmente, está a questão do pai, tratada com uma excepcional amplidão, em “Totem e tabu”, e retomada a partir de um exemplo particular, em “Moisés e o monoteísmo” (1932-1938). Ela constitui um dos pontos mais difíceis da doutrina de Freud, devido ao polimorfismo da função paterna em sua obra. Mais tarde, foi o conceito de narcisismo que foi objeto do grande artigo em 1914, “Sobre o narcisismo: uma introdução”, necessária para levantar as dificuldades encontradas na análise de Schreber e tentar explicar as psicoses, mas também para esboçar uma teoria do eu. “O estranho” (Das Unheimliche), publicado em 1919, refere-se especialmente à problemática da castração. Porém, a maior alteração decorreu da conceitualização do automatismo de repetição e do instinto de morte, que são o assunto de “Além do princípio de prazer” (Jenseits dês Lustprinzips, 1920). A teoria do eu e da identificação serão os temas centrais de “Psicologia de grupo e análise do ego” (Massenpsychologie umd Ich-Analyse, 1921).
Finalmente, “A Negativa” (Die Verneinung, 1925) irá sublinhar a primazia da palavra, na experiência psicanalítica, ao mesmo tempo em que define um modo particular de presentificação do inconsciente.
Freud nunca deixou de tentar reunir, em uma visão que chama de metapsicologia, as descobertas que sua técnica permitiu e as elaborações que nunca deixaram de acompanhar sua prática, mesmo afirmando que esse esforço não deveria ser interpretado como uma tentativa de constituição de uma nova “visão do mundo” (Weltanschauung).
Certos remanejamentos valem como correções de posições anteriores. Este é o caso da teoria do fantasma que, por volta de 1910, irá substituir a primeira teoria traumática da sedução precoce (Leonardo da Vinci e uma lembrança de sua infância, 1907; Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental, 1911; “O Homem dos Lobos”, 1918).
Esse também foi o caso do masoquismo, considerado, num primeiro momento, como uma inversão do sadismo. As teses de “Além do princípio do prazer” permitirão a concepção de um masoquismo primário, que Freud será levado a tornar equivalente, em “O problema econômico do masoquismo” (1925), ao instinto de morte e ao sentimento de culpa irredutível e inexplicado, revelado por certas análises.
De forma sem dúvida arbitrária, pode-se classificar, nos remanejamentos tornados necessários devido ao desgaste dos termos (embora muitos outros motivos o justifiquem), a introdução da segunda tópica, constituída pela três instâncias, isso, eu e supereu (O ego e o id [Das Ich und das Es], 1923), as novas considerações sobre a angústia, como sinal de perigo (Inibições, sintomas e ansiedade/angústia [Hemmung, Symptom und Angst], 1926) e, finalmente, o último texto, inacabado, “A divisão do ego no processo de defesa (Die Ichspaltung im Abwehvorgang, 1938), no qual Freud anuncia que, apesar das aparências, o que irá dizer, referindo-se à observação do artigo de 1927, sobre o fetichismo, também era então totalmente novo. E, de fato, as formulações nele propostas apresentem-se como um esboço de uma remodelagem de toda a economia de sua doutrina.”
Na obra de Freud, dois textos possuem, aparentemente, um estatuto um tanto especial. São eles “O futuro de uma ilusão” (Die Zukunft einer Illusion), publicado em 1927, que examina a questão da religião, e “O mal-estar na civilização” (Das Unbehagen in der Kultur, 1929), dedicado ao problema da felicidade, considerada pro Freud inatingível, e às exigências exorbitantes da organização social ao sujeito humano.
De fato, trata-se da consideração de fenômenos sociais, à luz da experiência psicanalítica. Na realidade, como sempre acontece com Freud, o ângulo escolhido para tratar de qualquer questão serve-lhe, antes de tudo, para dar esclarecimentos ou indicações sobre aspectos importantes da experiência. Isso ocorre, em “O Futuro”, com a questão do pai e a de Deus, como seu corolário; em “O mal-estar”, a maldade fundamental do ser humano e a constatação paradoxal de que quanto mais o sujeito satisfaz os imperativos morais, os do supereu, mais este se mostra exigente.
Em 1911, Adler e Stekel se separaram do grupo freudiano. Dois anos depois, Jung e Freud romperam todas as suas relações. Não suportando desvios em relação à sua doutrina, Freud publicou, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, um verdadeiro panfleto, “A história do movimento psicanalítico”, no qual denunciou as traições de Jung e Adler. Depois, criou um Comitê Secreto, composto de seus melhores paladinos, aos quais distribuiu um anel de fidelidade.
Longe de evitar as dissidências, essa iniciativa levou a novas querelas. Apoiados por Jones, os berlinenses (Abraham e Eitingon) preconizava a ortodoxia institucional, enquanto os austro-húngaros (Rank e Ferenczi) se interessavam mais pelas inovações técnicas. Uma nova dissidência marcou ainda a história desse primeiro freudismo: a de Wilhelm Reich.
Por volta de 1930, o fenômeno da dissidência deu lugar às cisões, característica da transformação da psicanálise em um movimento de massa. A partir daí eram os grupos que se enfrentavam, não mais os discípulos ou os pioneiros em rivalidade com o mestre. Isolado em Viena, mas célebre no mundo inteiro, Freud prosseguiu sua obra, sem conseguir controlar a política de seu movimento. Entre 1919 e 1933, a IPA se transformou em uma verdadeira máquina burocrática, com a responsabilidade de resolver todos os problemas técnicos relativos à formação dos psicanalistas.
No fim da Primeira Guerra Mundial, a discussão sobre o caráter traumático das afecções psíquicas foi relançada, com o aparecimento das neuroses de guerra. Freud foi então confrontado com seu velho rival Julius Wagner Jauregg, acusado de ter submetido soldados julgados simuladores a inúteis tratamentos elétricos. Nesse debate, Freud interveio de maneira magistral para demonstrar a superioridade da psicanálise sobre todos os outros métodos.
Com o desmoronamento do império austro-húngaro, Berlim se tornou a capital do freudismo, como provou a criação do Berliner Psychoanalytisches Institut (BPI), e as numerosas atividades do instituto de Frankfurt em torno de Otto Fenichel e da “esquerda freudiana”. Enquanto os americanos afluíam a Viena para se formar no divã do mestre, este analisava a própria filha, Anna Freud. Esta não tardaria a tornar-se chefe de escola e opor-se a Melanie Klein, sua principal rival no campo da psicanálise de crianças. Nesse aspecto, a oposição entre a escola vienense, que se desenvolveu na IPA a partir de 1924 e que girava em torno da questão da sexualidade feminina, mostrou o lugar cada vez mais importante das mulheres no movimento psicanalítico. No centro dessa polêmica, Freud manteve sua teoria da libido única e do falocentrismo, sem com isso mostrar-se misógino. Ligado em sua vida particular a uma concepção burguesa da família patriarcal, adotava todavia, em suas amizades com mulheres intelectuais, uma atitude perfeitamente cortês, moderna e igualitária. Por sua doutrina e por sua condição de terapeuta, desempenhou um papel na emancipação feminina.
Nos anos 1920, Freud publicou três obras fundamentais, através das quais definiu sua segunda tópica e remanejou inteiramente sua teoria do inconsciente e do dualismo pulsional: “Mais-além do princípio do prazer” (1920), “`Psicologia das massas e análise do eu” (1921), “O eu e o isso” (1923). Esse movimento de reformulação conceitual já começara em 1914, quando da publicação de um artigo dedicado à questão do narcisismo. Confirmou-se, em 1915, com a elaboração de uma metapsicologia e a publicação de um ensaio sobre a guerra e a morte, no qual Freud sublinhava a necessidade para o sujeito de “organizar-se em vista da morte, a fim de melhor suportar a vida”. Dessa reformulação, centrada na dialética da vida e da morte e em uma acentuação da oposição entre o eu e o isso, nasceriam as diferentes correntes do freudismo moderno: kleinismo, Ego Psychology, Self Psychology, lacanismo, annafreudismo, Independentes.
Para postular a existência de uma pulsão de morte, Freud revalorizou duas figuras da mitologia grega: Eros e Tânatos. Essa revisão da doutrina original se produziu em um momento em que a sociedade vienense, já preocupada com a sua própria morte desde o fim do século, se confrontava com a negação absoluta de sua identidade: a Áustria dessa época, como enfatizou Stefan Zweig, era, no mapa da Europa, apenas “uma luz crepuscular”, uma “sombra cinzenta, difusa e sem vida, da antiga monarquia imperial”.
Em fevereiro de 1923, Freud descobriu, do lado direito de seu palato, um pequeno tumor, que devia ser logo extirpado. Em um primeiro tempo, Felix Deutsch, seu médico, lhe ocultou a natureza maligna desse tumor. Freud se indispôs com ele. Seis meses depois, Hans Pichler, cirurgião vienense, procedeu a uma intervenção radical: a ablação dos maxilares e da parte direita do palato. Trinta e uma operções seriam feitas posteriormente, sob a supervisão de Max Schur. Freud foi obrigado a suportar uma prótese, que ele chamava de “monstro”. “Com seu palato artificial, escreveu Zweig, ele tinha visivelmente dificuldade para falar [...]. Mas não abandonava seus interlocutores. Sua alma de aço tinha a ambição particular de provar a seus amigos que sua vontade era mais forte que os tormentos mesquinhos que o seu corpo lhe infligia [...]. Era um combate terrível, e cada vez mais sublime à medida que se estendia. Cada vez que eu o via, a morte jogava mais distintamente sua sombra sobre seu rosto [...]. Um dia, quando de uma de minhas últimas visitas, levei comigo Salvador Dali, a meu ver o pintor mais talentoso da jovem geração, que devotava a Freud uma veneração extraordinária. Enquanto eu falava, ele desenhou um esboço. Nunca tive coragem de mostrá-lo a Freud, pois Dali, em sua clarividência, já representara o trabalho da morte.”
A doença não impedia Freud de prosseguir com suas atividades, mas o mantinha afastado das questões do movimento psicanalítico, e foi Jones quem presidiu os destinos da IPA a partir de 1934, data na qual Max Eitingon foi obrigado a deixar a Alemanha.
Apaixonado por telepatia, Freud não hesitou em se dedicar, com Ferenczi, entre 1921 e 1933, a experiências ditas “ocultas”, que iam contra a política jonesiana, que visava dar à psicanálise uma base racional, científica e médica. Em 1926, depois de um processo intentado contra Theodor Reik, tomou vigorosamente a defesa dos psicanalistas não-médicos, publicando “A questão da análise leiga”. No ano seguinte, deflagrou com seu amigo Oskar Pfister uma polêmica ao publicar “O futuro de uma ilusão”, obra na qual comparava a religião a uma neurose. Enfim, em 1930, com “O mal-estar na cultura”, questionava a capacidade das sociedades democráticas modernas de dominar as pulsões destrutivas que levam os homens à sua perda. Dois anos depois, em um intercâmbio com Albert Einstein (1879-1955), enfatizou que o desenvolvimento da cultura era sempre uma maneira de trabalhar contra a guerra. Entre 1929 e 1939, manteve uma crônica de seus encontros (Kürzeste Chronik, Crônica brevíssima), que seria publicada por Michael Molnar em Londres, em 1992. Cada vez mais pessimista quanto ao futuro da humanidade, Freud não tinha nenhuma ilusão sobre a maneira como o nazismo tratava os judeus e a psicanálise: “Como homem verdadeiramente humano, escreveu Zweig, ele estava profundamente abalado, mas o pensador não se surpreendia absolutamente com a espantosa irrupção da bestialidade.” Entretanto, no dia seguinte ao incêndio do Reichstag, decidiu com Eitingon manter a existência do BPI. Embora não aprovasse a política de “salvamento” da psicanálise, preconizada por Jones, cometeu o erro de privilegiar a luta contra os dissidentes (Reich e os adlerianos), ao invés de recusar qualquer compromisso com Matthias Heinrich Göring, o que teria levado à suspensão de todas as atividades psicanalíticas, logo que Hitler chegou ao poder.
Mas em março de 1938, no momento da invasão da Áustria pelas tropas alemãs, Richard Sterba agiu em sentido contrário, decidindo recusar a política de Jones e não criar em Viena um instituto “arianizado” como o de Göring, em Berlim. Tomou-se então a decisão de dissolver a Wiener Psychoanalytische Vereinigung (WPV) e transportá-la “para onde Freud fosse morar”. Graças à intervenção do diplomata americano William Bullitt (1891-1967) e a um resgate pago por Marie Bonaparte, Freud pôde deixar Viena com sua família. No momento de partir, foi obrigado a assinar uma declaração na qual afirmava que nem ele nem seus próximos haviam sido importunados pelos funcionários do Partido Nacional-Socialista. Em Londres, instalou-se em uma bela casa em Maresfield Gardes 20, futuro Freud Museum. Ali, redigiu sua última obra, “Moisés e o monoteísmo”. Nunca saberia do destino dado pelos nazistas às suas quatro irmãs, exterminadas em campos de concentração.
No começo do mês de setembro de 1939, escutava o rádio todos os dias. Aos seus familiares, que lhe perguntavam se aquela seria a última guerra, respondia: “Será minha última guerra.” Iniciou então a leitura de “Peau de chagrin” de Honoré de Balzac (1799-1850): “É exatamente disso que preciso, disse, este livro fala de definhamento e de morte por inanição.” Em 21 de setembro, pegou a mão de Max Schur e lembrou o primeiro encontro dos dois: “Você prometeu não me abandonar quando chegasse a hora. Agora é só uma tortura sem sentido.” Depois, acrescentou: “Fale com Anna; se ela achar que está bem, vamos acabar com isso.” Consultada, Anna quis adiar o instante fatal, mas Schur insistiu e ela aceitou a decisão. Por três vezes, ela deu a Freud uma injeção de três centigramas de morfina. Em 23 de setembro, às três horas da manhã, depois de dois dias de coma, Freud morreu tranqüilamente: “Foi a sublime conclusão de uma vida sublime, escreveu Zweig, uma morte memorável em meio à hecatombe, daquela época mortífera. E quando nós, seus amigos, enterramos seu caixão, sabíamos que confiávamos à terra inglesa o que a nossa pátria tinha de melhor.” As cinzas de Freud repousam no crematório de Golders Green.
Centenas de obras foram escritas no mundo sobre Freud e algumas dezenas de biografias lhe foram consagradas, de Fritz Wittels a Peter Gay, passando por Lou Andréas Salomé, Thomas Mann, Siegfried Bernfld, Ernest Jones, Ola Andersson, Henri F. Ellenberger, Max Schur, Kurt Eissler, Didier Anzieu, Carl Schorske. Sua obra, traduzida em cerca de 30 línguas, é composta de 24 livros propriamente ditos (dos quais dois em colaboração, um com Josef Breuer, outro com William Bullitt) e de 123 artigos. Freud também escreveu prefácios, necrológios, intervenções diversas em congressos e contribuições para enciclopédias.
Acredita-se geralmente que a psicanálise renovou o interesse tradicionalmente atribuído aos eventos da existência para compreender ou interpretar o comportamento e as obras dos homens excepcionais. Isso não é verdade, e Freud, sobre isso, é categórico: “Quem quiser se tornar biógrafo deve se comprometer com a mentira, a dissimulação, a hipocrisia e até mesmo com a dissimulação de sua incompreensão, pois a verdade biográfica não é acessível e, se o fosse, não serviria de nada” (carta a A. Zweig, de 31 de maio de 1936).
Kurt Eissler avaliou em 15 mil o número de cartas escritas por Freud e em cerca de 10 mil as que estão depositadas na Biblioteca do Congresso, em Washington ou seja uma perda de aproximadamente cinco mil peças. O historiador alemão Gerhard Fichtner propôs outras cifras. Segundo ele, Freud teria escrito cerca de 20 mil cartas. Dez mil teriam sido destruídas ou perdidas, cinco mil estão conservadas e cinco mil ainda poderiam ser encontradas no século XXI, ou seja dez mil no total. Observe-se que Freud destruiu ou perdeu uma parte das cartas que seus correspondentes lhe enviaram, particularmente as de Wilhelm Fliess.
Três mil e duzentas cartas de Freud foram publicadas, entre as quais as dirigidas a Eduard Silberstein, Wilhelm Fliess, Lou Andréas-Salomé, Ernest Jones, Carl Gustav Jung, Sandor Ferenczi, Romain Rolland, Arnold Zweig, Stefan Zweig, Edoardo Weiss, Oska Pfister (expurgadas), Karl Abraham (expurgadas).
Duas edições completas da obra de Freud em alemão foram realizadas: uma durante sua vida, os “Gesammelte Schriften”, a outra depois em sua morte, as “Gesammelte Werke (GW)”, publicadas primeiro em Londres, depois em Frankfurt. As GW se tornaram, universalmente, a edição de referência. Foram completadas por dois outros volumes, um “Índice” e um volume de suplementos (Nachtragsband), realizado por Ângela Richards e Ilse Grubrich-Simitis. A estes se acrescentam uma edição dita de estudos, a Studienausgabe, elaborada por Alexander Mitscherlich e composta de um seleção de textos. Apesar de todos os esforços de Mitscerlich e de Ilse Grubrich-Simitis, nenhuma edição dita crítica das GW (notas, comentários, apresentações, etc.) foi publicada na Alemanha.
A edição inglesa, realizada por James Strachey sob o título “Standard Edition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud (SE)”, é a única edição crítica da obra de Freud. É por isso que, mais ainda do que as “Gesammelte Werke”, é uma obra de referência no mundo inteiro.
Em razão da oposição dos herdeiros nenhum dos textos de Freud anterior ao ano de 1886 foi integrado às diversas obras completas. Ora, durante esse período, dito pré-psicanalítico, que se estendeu de 1877 a 1886, Freud publicou 21 artigos sobre temas diversos: neurologia, medicina, histologia, cocaína, etc. Esses artigos foram recenseados em 1973 por Roger Dufresne.
Em 1967, Jean Laplanche e Jean-Bertrand Pontalis isolaram cerca de 90 conceitos estritamente freudianos no interior de um vocabulário psicanalítico composto de 430 termos. Esses conceitos foram objeto de múltiplas revisões, efetuadas pelos grandes teóricos e clínicos do freudismo: Sandor Ferenczi, Melanie Klein, Jacques Lacan, Donald Woods Winnicott, Heinz Kohut, etc.
Observe-se que Freud publicou cinco grandes casos clínicos, que foram comentados ou revistos por seus sucessores: Ida Bauer (Dora), Herbert Graf (O Pequeno Hans), Ernst Lanzer (O Homem dos Ratos), Daniel Paul Schreber, Serguei Constantinovitch Pankejeff (O Homem dos Lobos). Segundo o quadro das filiações estabelecido por Ernst Falzeder em 1994, Freud formou na análise didática mais de 60 práticos, na maioria alemães, autríacos, ingleses, húngaros, neerlandeses, americanos, suíços, aos quais se acrescentam os pacientes cuja identidade se ignora.
Foi talvez Stefan Zweig, em 1942, quem redigiu um dos relatos mais realistas de Freud: “Não se podia imaginar um indivíduo de espírito mais intrépido. Freud ousava a cada instante expressar o que pensava, mesmo quando sabia que inquietava e perturbava com suas declarações claras e inexoráveis; nunca procurava tornar sua posição menos difícil através da menor concessão, mesmo de pura forma. Estou convencido de que Freud poderia ter exposto, sem encontrar resistência por parte da universidade, quatro quintos de suas teorias, se estivesse disposto a vesti-las prudentemente, a dizer “erótico” em vez de “sexualidade”, “Eros” em vez de “libido” e a não ir sempre até o fundo das coisas, mas limitar-se a sugeri-las. Mas, desde que se tratasse de seu ensino e da verdade, ficava intransigente; quanto mais firme era a resistência, tanto mais ele se afirmava em sua resolução. Quando procuro um símbolo da coragem moral- o único heroísmo no mundo que não exige vítimas – vejo sempre diante de mim o belo rosto de Freud, com sua clareza viril, com seus olhos sombrios de olhar reto e viril”.

Bibliografia:
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ROUDINESCO, ELISABETH - Dicionário de Psicanálise, Jorge Zahar Editor, RJ-1997.

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KAUFMANN, PIERRE – Primeiro Grande Dicionário Lacaniano, Jorge Zahar Editor, RJ-1996.

NASIO, J-D - Introdução às Obras de Freud, Ferenczi, Groddeck, Klein, Winnicott, Dolto, Lacan, Jorge Zahar Editor, RJ-1995.